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A Casa da Cabrita

A Casa da Cabrita

Para além do meu blog ter sido Destaque na página da Sapo, também foi partilhado na página de Facebook da Sapo e tive mais visualizações do que sequer poderia imaginar. Sinto-me pequenina, mas uma pequenina muito agradecida. Eu comecei a escrever este blog como maneira de me sentir mais perto das minhas pessoas, enquanto vivo temporariamente na Alemanha. E nunca poderia imaginar este pequena casa a chegar a tantas. 

Genuinamente divirto-me a divertir, e só de pensar na possibilidade de ter divertido 10% das mais de 3000 pessoas que passaram pelo blog na Quinta, põe-me o maior sorriso idiota na cara. 

Muito, muito obrigada!

 

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Depois de toda uma aventura para conseguir arranjar voo para Estocolmo (ver aqui), finalmente estava dentro do avião. O avião nem ia lotado. Eu ia à janela, o lugar do meio estava livre e havia um senhor no lugar do corredor. Estava bastante ensonada, com um episódio de “Grace and Frankie” à minha frente e prontíssima para um voo de 1h30.

A meio da viagem, as hospedeiras começaram a oferecer bebidas. Eu, que até ando a tentar reduzir os refrigerantes (nos dias de hoje, fica sempre bem deixar a dica que tento ser fit), achei que merecia um miminho, tendo em conta o stress do dia anterior, e pedi uma cola. O senhor do corredor pediu café. Eu recebi a minha cola primeiro. No exacto instante em que a hospedeira dá o café ao senhor e em que eu ia dar um primeiro golo muito desejado, há todo um espectáculo de turbulência, e 10 segundos passaram a ser 3 anos, tamanha quantidade de eventos. Em câmara muito lenta, a hospedeira caiu desamparada no corredor, o senhor conseguiu despejar o café na barriga e virilha e eu... bem, eu ajudei e despejei a minha cola em cima do senhor. Internamente, o pânico instalou-se. Eu não me podia rir, eu não podia mesmo rir! Pensar em cãezinhos mortos, cobras nos meus pés, a crise portuguesa, Benfica a ganhar o campeonato! E este diálogo, algo que eu achei que nunca iria ouvir, muito menos num avião, aconteceu mesmo ali, debaixo do meu nariz:

 

(Hospedeira, a partir do chão): “Tire as calças, tire as calças, vai queimar! Senhor, tem que tirar as calças!”

(Senhor visivelmente aflito): “Ai, ai que ‘tá quente. Mas não vou tirar as calças!”

(Hospedeira ainda a partir do chão, coitadinha ninguém a ajudava): “Tire as calças, tire! Vai queimar!”

Eu: “Posso ajudá-lo?”

 

Se calhar a minha intervenção não foi a melhor. E, muito provavelmente, a minha boa intenção pode ter sido levada por outros caminhos. Acabou com o senhor a não tirar as calcas (mas abriu a camisa, upa upa).

Lição a retirar: refrigerantes só fazem mal. Se não à pessoa que o bebe, muito provavelmente ao vizinho do lado.

Há cerca de um mês, visitei Estocolmo com umas amigas. Marquei o voo da  AirBerlin em Dezembro, tudo certinho. Ir na Sexta e voltar no Domingo. Um fim de semana pequenito mas muito desejado. O que não estava nos planos era o meu voo de ida ser cancelado na véspera. E cancelado da maneira que foi. Recebi um email a dizer "O seu voo de amanhã foi cancelado. Lamentamos o incómodo.“. Só isto. Nem como é que eu poderia resolver a situação, nem formas de reembolso. Depois do pânico inicial, e de perceber que ligar para o call center era uma perda de tempo, fiz uma mochila de sobrevivência, com as coisas básicas que poderia precisar durante o fim de semana, e fui para o aeroporto. Tão ingénua e querida, e como desconhecia que a razão do cancelamento era uma greve de técnicos de pista, achei que o problema ia ser facilmente resolvível. Resumindo: tive 6 horas no aeroporto numa fila interminável para os serviços da AirBerlin e consegui um voo de substituição.

 

Portanto a história tem todo um final feliz, sim senhora. Mas e aquelas 6 horas na fila dos serviços da AirBerlin? E toda aquela socialização espectacular com pessoas (muitos delas alemãs) chateadas e resmungonas? E o comportamento animalesco de grande parte delas? Nada temam, 6 horas deram-me, de facto, tempo de criar uma lista mental do tipo de pessoas em filas:

 

  1. Os que tentam travar amizade. Depois de 1 hora numa fila sentimos que já conhecemos muito bem, no mínimo, a pessoa à nossa frente e a atrás de nós. Mas depois há aquelas pessoas que querem literalmente conhecer uma pessoa. Começam com afirmações banais do género "Estas filas... As coisas que eu poderia estar a fazer agora“. A pessoa calha no erro de responder com um sorriso e um "Pois“ vago e eles já estão a perguntar quantos sobrinhos netos tem a vizinha da avó.

  2. Os que não sabem o que é espaço pessoal. Já é desagradável estar aquele tempo todo de pé. Passar o peso de uma perna para a outra, mexer os joelhos, tentar não espreguiçar o corpo todo para não termos toda uma imagem da mãe a dizer "MAS ESTÁS EM CASA OU QUÊ?“. Para animar, só falta mesmo ter uma pessoa colada a nós. Ali, a respirar em cima de nós, aquele quentinho dióxido de carbono a aquecer o pescoço. A não ser que sejam o Brad Pitt ou o Sérgio Ramos, não sejam esta pessoa.

  3. Os que formam buracos. Pessoas, estar numa fila é muito simples. A fila avança, nós avançamos com ela. Eu sei, eu sei. Há apologistas da lei de menor esforço: "Se a pessoa à minha frente só se mexeu 20cm, vou esperar mais um bocadinho e na próxima vez eu já me mexo 40 cm.“ Mas e os buracos, senhores? Mais ninguém sofre mentalmente com aqueles buracos que se formam no meio da fila? Apetece chegar lá, empurrar a pessoa e dizer "Bom dia!“. 

  4. Os alheios ao óbvio. Tínhamos pessoas numa fila que começava no balcão de serviços da AirBerlin e acabava a duas estações de autocarro do aeroporto. E ainda assim, com o óbvio mesmo escarrapachado, apareciam sempre umas alminhas brilhantes a questionar "Estão na fila para os serviços?“. Não, senhores, estamos em promessa no aeroporto, porque não há coisas melhores para se fazer a uma quinta à tarde.

  5. O "Vou só ali fumar um cigarrinho, volto já“. Devo admitir que é uma técnica de génio. E, pelo tempo que demorou, o senhor foi fumar o cigarrinho, entregar aquele relatório de contas que já estava atrasado, buscar os filhos à escola, dormir uma sestinha e depois fumar outro cigarrinho, porque já merecia, afinal foram 4 horas sem fumar.

  6. Os "Tive que trazer os meus filhos comigo“. Eu não tenho filhos, mas tento compreender. Realmente ter um filho à espera connosco pode ser chato. Se eu sozinha já estava a desesperar e a querer chorar no colinho da mãe, nem quero imaginar com um puto a berrar "EU QUERO IR EMBORA“ esbardalhado no chão a tentar substituir uma esfregona (das boas). 

  7. Os "Vou filmar isto no telemóvel, colocar nas redes sociais e fazer queixa“. Na sociedade dos dias de hoje é muito raro não haver imagens de qualquer acontecimento, seja ele mais ou menos importante. Agora, uma fila de pessoas desagradadas com uma greve é assim tão relevante? Mais importante, será assim tão necessário guardar para a posteridade a minha cara de cão, com olheiras até ao joelho e todo um cabelo apanhado num rabicho oleoso? Não é senhor, olhe que a fila não anda mais depressa.

  8. Os que aparecem do nada. Ao fim de algumas horas em pé, começam as alucinações. Toda a gente está cansada, toda a gente quer ir embora, toda a gente quer que as pessoas à sua frente tenham algum tipo de emergência e arredem pé. E de repente, damos por nós a questionar se aquela pessoa que está mesmo perto de nós sempre esteve ali. Será que acabou de furar? Mas tem um ar tão cansado... Não, tenho a certeza que nunca vi aquela cara nas últimas horas! Mas está ali tão confortável, alguém já tinha reclamado se ela tivesse furado... Vou reclamar, isto não pode ser assim! Mas não sei falar alemão... Eventualmente uma pessoa desiste deste dilema pessoal e aceita que vai criar raízes naquele sítio.

  9. Os "Vou só ali fazer uma perguntinha“. Ah, os meus favoritos. Os chicos espertos dos chicos espertos.  Os idiotas que só precisam mesmo de uma pequenina informação. Que vão demorar 10 segundos, porque é mesmo uma coisinha rápida. Até aposto que é uma perguntinha de Sim ou Não. Aquelas pessoas às quais queremos dizer "Vai passear“ mas nem temos tempo. Que nem cobras, já rastejaram, ultrapassando toda a gente, e já estão a sorrir para a pessoa do balcão. Um sorriso aberto e simpático de quem só quer fazer uma perguntinha rápida, ficar lá 30 minutos, despachar o seu assunto e quiçá falar um bocadinho sobre a vida, porque não existem mil pessoas a imaginar facas cravadas nas suas costas.

 

Pois é. 1 mês e meio sem meter aqui os pézinhos. Fui uma má (quase que) blogger, eu sei. Mas a minha vida tem sido dura. Duríssima, por sinal. É que isto de receber visitas, dar um saltinho a Estocolmo (passando por Frankfurt, mas isso é outra história), ir à Grécia e estar já de malas aviadas para Barcelona, tem muito que se lhe diga. Aos que se questionam "Mas a moça trabalha?" a resposta é: Sim, trabalho e tem estado tudo a correr muito bem! Até um bocadinho demasiado bem, mas se resultar, eu anunciarei aqui. 

 

Resumindo muito resumido tudinho:

 - Os meus pais não fizeram mais disparates em Berlim. Houve todo um esforço, mas nada superou o roubo de café. 

 - Para ir para Estocolmo ter com as miúdas mais giras, tive que ir a Frankfurt porque o meu voo de Berlim foi cancelado. Todo um stress que nem é bom relembrar, mas fui e Estocolmo recebeu-me de braços abertos. Vi o barco gigante (ERA MESMO GIGANTE), vi os vestidos de noivas da rainha e princesas e comi um dos melhores hambúrgueres de sempre. Tudo isto com a companhia das galinhas. Não podia ter pedido melhor.

- Adorei a Grécia. Atenas é uma cidade feiosa mas tem sítios muito muito bonitos. Conheci pessoas espectaculares de toda a Europa (e até do Canadá!) que já ganharam um espacinho neste coração. É mesmo muito bom quando, de forma completamente aleatória, acabas por conhecer pessoas tão especiais. 

 

E é isto. É pouquinho, mas depois de ouvir tantas queixas e tantos "Mas estás mesmo bem??", tinha que cá vir acalmar a multidão (constituída pela minha mãe e tia). Prometo contar certos episódios (cómicos, claro está) com mais pormenor mal páre um bocadinho no mesmo sítio!!