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A Casa da Cabrita

A saga da (recente) maternidade, da (não tão recente) emigração, de uma relação intercultural e do caos que é viver entre Portugal e a Alemanha.

A Casa da Cabrita

A saga da (recente) maternidade, da (não tão recente) emigração, de uma relação intercultural e do caos que é viver entre Portugal e a Alemanha.

Esta vida de IKEA está a dar cabo de mim

Rita, 18.05.19

O IKEA é aquele espaço que sempre adorei visitar. Porque significa comida boa (ou cachorros a 0,50 cêntimos) e um passeio por uma exposição maravilhosa onde podemos imaginar como a nossa casa de sonho poderia vir a ser. Com alguma sorte até comprava alguma coisa! Verdade seja dita, tive sempre uma razão para ir ao IKEA. Comprar uma cómoda, comprar uns acessórios, comprar cebola frita, etc. Coisas leves, coisas fáceis. Atividade para uma manhã de sábado, no máximo. E eu sempre adorei montar a mobília do IKEA. É quase como Lego para adultos. Fazia-me sentir mega adulta e independente. Olhem para mim, montei uma cadeira!  *aplausos, aplausos*.

 

E foi por causa destas razões todas que eu estava toda entusiasmadinha para ir ao IKEA comprar mobília para esta casa nova. A minha primeira mobília. Infinitas possibilidades à minha disposição. Finalmente poderia ter uma casa decorada como eu sempre quis! E o problema começa aí: mas que raios é que eu quero? Ah pois. Agora já não me agrada tanto estas possibilidades infinitas...

 

Outra coisa que também nunca entrou no meu cérebrozinho de ervilha foi que, quando arrendamos uma casa (ou até quando a compramos), esta não se adapta à mobília. SURPRESAAAA. Esta pessoa resolveu meter-se na internet a escolher montes de coisas, antes de medir qualquer divisão (se calhar cérebrozinho de ervilha é demasiado lisongeador). E, depois de medir as divisões, veio o verificar que, afinal, a mobília não fica nada bem no sítio que tinha pensado originalmente. Novamente, SURPRESAAA. No meio disto tudo já vamos em 3 visitas ao IKEA, já não aguentamos o cheiro a almôndega e já sangro dos ouvidos sempre que alguém me pergunta se já temos mobília. 

 

Eventualmente lá comprámos a mobília. E depois, tivémos que a carregar. E montar. E aqui é que a porca torceu o rabo. Estava entusiasmadíssima para montar os móveis. Ah e tal, Lego para adultos, mulher adulta e independente. O entusiasmo durou uma gaveta de cómoda. Montámos uma estante, uma cómoda, uma cama (gigante!!!), duas cabeceiras, duas mesas para refeições, duas cadeiras, uma secretária e um móvel de televisão. No final, ficou tudo muito lindinho e a meu gosto. E adoro todos os móveis que escolhemos. Mas durante o montar, questionei-me muito do meu gosto. É que as coisas podem ser lindas de morrer lá naquela exposição do demónio, onde tudo combina e é perfeito. Mas e o montar algumas peças? Eu fui uma querida para mim própria e escolhi uma cabeceira com duas gavetas exteriores e uma interior. E lembrei-me de pensar que aquela gaveta interior era lindissima e dava um toque tão especial à peça...... digamos que ao fim de duas horas a tentar montar a porcaria de uma cabeceira, a gaveta interior só não foi pela janela porque tenho um namorado bem mais ponderado que eu. 

 

Agora já temos a maior parte da mobília. Mas amanhã vamos ter que voltar ao IKEA para comprar mais umas coisas que, só com o tempo, nos apercebemos que era bom ter.

 

Já me treme a vista.

 

Estão a ver quando querem muito uma coisa?

Rita, 09.05.19

Estou na fila do Santini. Final de tarde espectacular. Está fila, mas aguenta-se. Afinal, é gelado do Santini. Penso no sabor que quero. Uva branca. Está escolhido. Não vou escolher, pela milésima vez, o doce de leite. Já provei, é maravilhoso e nunca desaponta, mas preciso de coisas novas. Espero mais um pouco. Finalmente, chego à caixa e faço o pedido. Dirijo-se ao balcão. Entrego o talão. Peço o sabor que quero. Recebo o gelado. Olho para o sabor doce de leite. Será que cometi um erro e que vou ter que voltar para a fila?

 

Foi esta a sensação durante as minhas primeiras 3 semanas na Alemanha.

 

Eu queria muito vir para aqui. Muuuuuuuito. Pensei e planeei isto, assim mais a sério, durante quase um ano. Queria arranjar emprego, arranjar um apartamento e ter uma vida bonita e bem alemã durante uns anos. Pensei, sonhei, lutei e... cá está. O que eu me esqueci de pensar foi no que realmente significava arranjar um emprego, um apartamento e uma vida cá. Esqueci-me que não posso ter duas vidas. Ou é uma ou é outra. Uma coisa super óbvia, mas que só me apercebi quando cheguei cá. Como assim novos colegas de trabalho? Como assim pintar, limpar e enfiar mobília numa casa nova? Como assim não posso ir ter com os meus amigos ou com a minha família depois do trabalho? Dei por mim a detestar todas as coisas novas que queria tanto porque, lá está, não podia ter as antigas.

Pensei várias vezes em pegar nas malas. Em chegar a casa dos meus pais e dizer "SURPRESA!". Em ligar à minha antiga supervisora e pedir o meu emprego de volta. Afinal, não queria nada do que estava à acontecer. Não queria mais tinta, não queria mais caixas, não queria mais ter de escolher mobília, não queria voltar para um emprego onde as pessoas são simpáticas, mas não são amigas, não queria ver os meus mais próximos apenas a partir de um ecrã.

 

Foram 3 semanas más. Mas, aos poucos, aquele sentimento de desconforto e insegurança vai passando. Já não há mais caixas para esvaziar, já não há mais mobília para montar, já não há mais paredes para pintar. Já conheco melhor as pessoas do trabalho, já me sinto (ligeiramente) útil e não só uma pessoa estranha a nadar na maionese. Já agendei skypes, já marquei futuros jantares para quando estiver em Portugal e já agendei férias. Já assentei. Não, ainda não atingi o pico de felicidade que achava que ia atingir mal chegasse cá. Mas já consigo acreditar que isto tudo vai valer muito a pena.

 

O doce de leite ia ser muito bom, como sempre foi, mas eu realmente tinha que provar uva branca.

 

Dia da Mãe

Rita, 05.05.19

Recebi feedback muito positivo deste meu retorno. Tenho mil e uma coisas para partilhar sobre esta mudança. O porquê (que, surpreendentemente só consegui realmente compreender quando cá cheguei), o como, as dificuldades, as pequenas vitórias, os sustos, as palhaçadas, os desastres na cozinha (já estão cheios de saudades, não é?) e toda uma panóplia de aventuras. Mas isso vai ter tudo que esperar. Porque hoje é o dia da mãe. 

 

A minha mãe não é a minha melhor amiga. É mesmo mãe. É mesmo aquela pessoa que dá colo. Que se zanga. Que me puxa para terra quando eu e o meu cérebro impulsivo começamos a trabalhar rápido demais. Mas também é aquela que me empurra. Porque, apesar de eu não gostar de admitir isto, é ela que me conhece melhor. É ela que percebe o meu olhar quando fiz asneira, que entende logo quando a estou a aldrabar e que compreende o meu mau humor matinal. Afinal, foi herança dela!

Também é dela que acabo por ter demasiadas saudades. Porque dou por mim a ver revistas de decoração, a comparar mil e um outfits para este novo emprego e não está cá a minha Carmo. A que sabe, melhor do que eu, o que eu gosto (por mais estranho que isto pareça).

 

Eu tenho muito que lhe agradecer, mas acabo por nunca o fazer. Não sou assim espectacular a falar sobre este tipo de coisas. Quando era mais adolescente (e ligeiramente mais parva, também), achava que a minha mãe era controladora, que não me deixava fazer nada, que não confiava em mim! E que tola que eu era. A minha mãe fez com que eu vivesse no tempo certo. Que eu não fizesse nada demasiado cedo. Que eu aproveitasse as coisas na altura devida. E isso é algo que levo comigo para sempre. Sim, ela continua a ser chata. Mas com o tempo, comecei a compreender muito melhor tudo o que ela fez e decidiu.

 

Tenho memórias antigas muito giras com ela. Uma que guardo com muito carinho é uma muito velhinha. Eu devia ter uns 4 ou 5 anos e estava um calor do demónio em Grândola. Fomos para o quintal com roupas de praia, com um alguidar e montes de bonecada. Ela enchia-me o alguidar com água e punhamos as bonecas de molho. E passámos uma manhã nisto. Uma memória tão simples que guardo com tanto carinho. 

 

Um segredo aqui entre nós, para além de mãe, eu espero ser a filha que ela é. Posso estar agora longe, mas vou voltar sempre que ela precisar. Aliás, eu também vou precisar. Até lá, e quando estou de coração muito apertado, costumo olhar para a Lua. Porque, estupidamente, sinto que estou a olhar para a mesma coisa que a minha família e amigos podem estar a olhar. Por isso, mãe, olha para a Lua comigo, todos os dias! 

 

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(P.S - Para quem não sabe, a minha mãe é professora de Português. A probabilidade de receber um email ou uma mensagem no Whatsapp a corrigir a colocação de vírgulas é colossal.)

Não há duas sem três

Rita, 04.05.19

Há dois anos e 12 dias, estava aqui a agradecer a todos os que me liam. E depois desapareci. Porque tive que me concentrar na tese, porque voltei para Portugal, porque comecei a trabalhar, porque mil e uma coisas. A vida dá muitas voltas. E dei por mim de volta à Alemanha. Não há duas sem três, não é verdade? Voltei com um espírito diferente, com ambições diferentes, com medos diferentes e para uma cidade diferente. Mas, como sempre suspeitei, voltei.

Pensei muitas vezes em "reabrir" esta casa. Mas faltava-me algo. Não me apetecia escrever só porque sim. Mas depois destas 3 primeiras semanas de volta à Alemanha, lembrei-me de porque é que criei este blog . No dia 21 de Junho de 2015, escrevi aqui "(...) a aflição é grande e nada melhor do que me afligir menos ao partilhar com vocês tudo o que se vai passar (...)". E é por isso mesmo que aqui voltei. Está tanta coisa a acontecer que volto a precisar desta espécie de terapia marada que é partilhar com todos (ou com ninguém) o que vai acontecendo. Do bom ao mau. Do riso ao choro. Do chocolate aos brócolos.

Honey, I'm home.