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A Casa da Cabrita

A saga da (recente) maternidade, da (não tão recente) emigração, de uma relação intercultural e do caos que é viver entre Portugal e a Alemanha.

A Casa da Cabrita

A saga da (recente) maternidade, da (não tão recente) emigração, de uma relação intercultural e do caos que é viver entre Portugal e a Alemanha.

Coisas estranhas que os alemães acham perfeitamente normal

Rita, 14.02.20

Já moro em Estugarda há 10 meses. E morei mais de um ano em Berlim. E há uma lista de coisas às quais não me consigo habituar e que, para os alemães, é o pão nosso de cada dia:

1. As pessoas olham.

Eu fui educada por pais fantásticos que repetiram até à exaustão frases como "Rita, não se aponta!"  e "Rita, não olhes assim para as pessoas!". Mas, claramente, isto não é prática comum na Alemanha. Eles olham. E não é olhar para alguém fora do comum, ou que chame à atenção, é olhar para toda a gente. Partilhei isto na minha aula de alemão e descobri que existe até um termo para isto: The Germanic Stare Down. Nem tudo é mau, há dias em que me sinto um grande canhão com todos os olhares. Mas também há outros em que preferia que as pessoas não reparassem que fui de fato de treino comprar um balde de pipocas. 

2. Ao Domingo é dia de descanso. Para todos.

Está/estava mesmo intríseco em mim ir às compras a um Domingo. Como assim na Alemanha eu não posso participar no comportanto (ligeiramente depressivo) de ir fazer compras ao Domingo? O típico passeio dos tristes. Para eles, Domingo é dia santo. Não em termos religiosos, mas em termos literais. É dia de estar com a família e de relaxar. Tanto que não é permitido fazer barulho nesses dias. Literalmente, eu posso chamar a polícia se achar que o meu vizinho está a ser demasiado barulhento. É por isso que eu nunca aspiro. Sabe-se lá quando é que a polícia me bate à porta.

3. Os alemães não sabem fazer filas.

Eu já escrevi muito filas aqui. Mas os alemães continuam a surpreender-me neste ponto. Não só não sabem o que é ter espaço pessoal em filas - parece que tenho que estar sempre a levar com aquele dióxido de carbono quentinho no pescoço - como também não percebem o conceito de fila. Não percebem. Os seus cérebros não dão para mais. Não dá perceber que deve ser uma recta. Uma linha. Uma pessoa atrás da outra. Fico nervosa sempre que uma criatura se mete ao meu lado na fila do supermercado. Quando a pessoa à minhe frente avança, eu avanço. Se o meu colega do lado se mexe, espeto logo um olhar mal encarado. Mas, como já expliquei, as pessoas olham-se assim normalmente, portanto comecei a entender que ninguém levava aquilo como mal olhado. Agora, em época de coronavírus prefiro tossir. É ver toda a gente a dar-me o espaço que preciso. Se tiver ranhoca, até saem da frente.

4. Toda a gente é um pai ou mãe.

Não digo isto no sentido literal, mas dar uma reprimenda a alguém desconhecido é totalmente normal. Já vi n vezes pessoas a pedirem a outras para não ouvirem música alto nos transportes, para tirarem o pé de bancos do comboio, para não fumarem ao pé de crianças (isto porque na Alemanha ainda é legal fumar em espaços fechados). Vejo sempre o olhar vitorioso dos  que repreendem. São seres superiores, pelos vistos.  Eu fui repreendida uma vez. Estava a ter um dia mau, mas também achei a situação parva. Num supermercado, quando o tapete da caixa ficou livre, eu coloquei as minhas coisas. O senhor à minha frente gritou comigo porque ele ainda não tinha colocado o separador entre as compras dele e as minhas, portanto eu não tinha direito a colocar os meus items no tapete. Desculpa mãe, desculpa pai. Claramente falhei.

5. O sinal vermelho dos peões é para ser respeitado.

Eu sou um peão responsável. Olho para um lado, olho para o outro, olho para o primeiro lado novamente e depois avanço. Essas tretas todas que nos salvam a vida. Contudo, se não vier nenhum carro, e se não houverem crianças por perto, eu vou avançar. Independemente da cor do semáforo. Contudo, os "pais" e "mães" deste país até batem palminhas mentais ao ver este comportamento, todos doidos de satisfação. Podem repreender alguém, finalmente! Até os consigo ver a levar um banquinho para um semáforo e ficar ali o dia todo. À espera da presa. 

Questiono-me qual será a lista que eles fariam sobre as coisas estranhas que os portugueses acham perfeitamente normal. Suponho que comece por "Ao Domingo toda a gente vai fazer compras". 

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